Software Livre no Pint of Science Brasil 2015

Pint of Science é um festival internacional em rede que reúne cientistas em mesas de bares para conversar e compartilhar sobre ciência, a repercussão que sua área de pesquisa tem para a sociedade, e muito mais. É divulgação científica + boteco!

O Brasil está participando pela primeira vez do evento, e a cidade de São Carlos terá 3 dias com mesas de bate-papo sobre temas variados em dois restaurantes da cidade.

Para quem estiver na cidade hoje (18/05), a partir das 20h o Espaço Sete terá uma conversa sobre software livre e a liberdade de conhecimento na academia. Estarei lá junto com um grupo de amigos participantes de diversas comunidades de software livre para falarmos sobre o assunto, e claro, beber cerveja.

Vejo vocês lá!

Ajude uma comunidade de software livre, doe!

Se você sempre quis contribuir com alguma comunidade de software livre e nunca soube como, você pode começar colaborando financeiramente. Isso mesmo, as comunidades de software livre também precisam de dinheiro pra se sustentar, e não só do trabalho e da dedicação dos voluntários.

Esse ano, a comunidade de colaboradores do KDE na América Latina, da qual eu tenho orgulho de fazer parte :) , está realizando uma campanha de arrecadação de fundos para que possamos realizar mais uma vez o nosso evento, o LaKademy.

Gostaríamos de pedir à todos vocês que colaborem e nos ajudem a reunir os colaboradores do KDE na América Latina, que trabalharão durante 4 dias para que os softwares que você usa fiquem ainda melhores <3

Por favor, contribua! :)

Faça uma doação de qualquer valor: http://novo.vakinha.com.br/vaquinha/faca-acontecer-o-lakademy-2015

Nossa comunidade agradece!

Cantor in KDE Applications 15.04

KDE Applications 15.04 release brings a new version of the scientific programming software Cantor, with a lot of news. I am specially happy with this release because I worked in several parts of these new features. =)

Come with me™ and let’s see what is new in Cantor.

Cantor ported to Qt5/KF5

cantor-kf5

Cantor Qt5/KF5 + Breeze theme. In the image it is possible to see the terminal/worksheet, variable management panel, syntax highlighting, code completion, and the standard interface

I started the Cantor port to Qt5/KF5 during previous LaKademy and I continued the development along the year. Maybe I had pushed code from 5 different countries since the beginning of this work.

The change for this new technology was successfully completed, and for the moment we don’t notice any feature missed or new critical bug. All the backends and plugins were ported, and some new bugs created during this work were fixed.

We would like to ask for Cantor users to report any problem or bug in bugzilla. Anyway, the software is really very stable.

When you run Cantor Qt5/KF5 version on the first time, the software will look for Cantor Qt4 configurations and, if it exists, the configurations will be automagically migrated to Cantor Qt5/KF5.

Backend for Python 3

In Season of KDE 2014 I was the mentor of Minh Ngo in the project to create a backend for Python 3, increasing the number of backends in Cantor to 10!

cantor-backends

Backend selection screen: Python 3 and their 9 brothers

The backend developed by Minh uses D-Bus protocol to allow communication between Cantor and Python 3. This architecture is different of Python 2, but it is present in others backends, as in the backend for R.

The cool thing is Cantor can be interesting for pythonistas using Python 2 and/or Python 3 now. We would like to get feedback from you, guys!

Icon!

Cantor first release was originally in 2009, with KDE SC 4.4. Since that date the software did not have an icon.

The Cantor Qt5/KF5 release marks a substantial change in the development of the application, then it is also a good time to release an icon to the software.

Ícone do Cantor

Cantor icon

The art is excellent! It presents the idea of Cantor: a blackboard to you write and develop your equations and formulas while scratches his head and think “and now, what I need to do to solve it?”. =)

Thank you Andreas Kainz and Uri Herrera, members of VDG team and authors of Cantor icon!

Other changes and bug fixes

Most bugs added in the Qt5/KF5 port were fixed before the release.

There are some small changes to be cited: in KNewStuff categories world, “Python2″ category was changed to “Python 2″ and “Python 3″ category was added; the automatic loading of pylab module in Python backends was dropped; now it is possible to run Python commands mixed with comments in the worksheet; and more.

You can see a complete log of commits, bugfixes, and new features added in this release in this page.

Future works

As future work maybe the high-priority for this moment is to drop KDELibs4Support from Cantor. Lucas developed part of this work and we would like to finish it for the next release.

I intend to test if D-Bus communication can be a good solution for Scilab backend. Another task is to redesign the graphical generation assistants of Python backends. A long-term work is to follow the creation of Jupyter project, the future of IPython notebooks. If Cantor can to be compatible with Jupyter, it will be really nice for users and to encourage the collaboration between different communities interested in scientific programming and open science.

I will take advantage of the Cantor Qt5/KF5 release to write about how to use Cantor in two different ways: the Matlab way and the IPython notebooks way. Keep your eyes in the updates from this blog! =)

If you would like to help in Cantor development, please contact me or mail kde-edu maillist and let’s talk about bug fixes, development of new features, and more.

Donations to KDE Brasil – LaKademy 2015!

If you would like to support my work, please make a donation to KDE Brasil. We will host the KDE Latin-American Summit – LaKademy and we need some money to put some latin-american contributors to work together face-to-face. I will focus my LaKademy work in the previously mentioned future works.

You can read more about LaKademy in this dot.KDE history. This page in English explain how to donate. There is other page with the same content in Spanish.

Cantor no KDE Applications 15.04

Com o lançamento do KDE Applications 15.04, o segundo release no novo modelo de lançamentos de softwares desenvolvidos no KDE – agora o desktop, conjunto de aplicações, e frameworks tem cada um seu próprio ciclo de release -, o software para programação científica Cantor chegou com várias novidades. Esse lançamento me deixa particularmente feliz pois trabalhei bastante em algumas delas. =)

Vamos ver o que o Cantor tem de novo?

Cantor portado para Qt5/KF5

cantor-kf5

Cantor Qt5/KF5 – visual usando Breeze, o novo tema padrão do KDE. Na imagem é possível ver o terminal, painel de gerenciamento de variáveis, destaque de sintaxe, complementação de código, e botões da tela padrão.

Trabalho que comecei no LaKademy do ano passado e fui desenvolvendo desde aquela data. Devo ter feito commits partindo de uns 5 países diferentes durante esse tempo.

A transição para essa nova tecnologia foi realizada com sucesso e até o momento não notamos nenhuma funcionalidade perdida ou bug crítico introduzido. Todos os backends e plugins foram portados, e alguns bugs que surgiram durante o port foram corrigidos.

Evidente que isso não garante que o software esteja livre de erros, portanto pedimos aos utilizadores que reportem quaisquer problemas no nosso gerenciador de bugs. De qualquer forma, o software está bastante estável.

Usuários do Cantor da versão Qt4 terão suas configurações migradas para o novo formato utilizado na versão Qt5/KF5 automagicamente após a primeira inicialização.

Backend para Python 3

Durante o Season of KDE 2014 orientei o colaborador Minh Ngo no projeto de desenvolvimento do backend para Python 3, fazendo com que o Cantor atingisse a marca de 10 backends diferentes!

cantor-backends

Tela de seleção de backend: Python 3 e seus outros nove irmãos

O backend de Minh utiliza comunicação via D-Bus para ligar o Cantor ao Python 3, uma arquitetura diferente da utilizada no Python 2 mas que já foi utilizada em outros backends, como no R.

O bacana é que agora o Cantor pode agradar tanto os pythonistas que usam Python 2 quanto os que já utilizam Python 3. Esperamos receber o feedback de vocês!

Ícone!

Cantor foi lançado originalmente em 2009, no agora velhinho KDE SC 4.4. Desde aquela época ele nunca teve um ícone próprio.

O lançamento da versão Qt5/KF5, que marca uma mudança substancial no desenvolvimento da aplicação, é um bom momento para também lançar um ícone próprio para o software, dando uma cara para ele.

Ícone do Cantor

Ícone do Cantor

E o resultado ficou excelente! Mostra bem a ideia do Cantor: um quadro negro para você ficar desenvolvendo seus cálculos enquanto coça a cabeça e pensa “e agora, daqui vai para onde?”. =)

Obrigado a Andreas Kainz e Uri Herrera, membros do VDG que desenvolveram o ícone!

Outras alterações e bugs corrigidos

Boa parte dos bugs introduzidos durante o processo de porting pro Qt5/KF5 foram corrigidos antes do release.

Há também algumas alterações menores que merecem ser citadas, como a mudança da categoria KNewStuff de “Python2″ para “Python 2″ e a adição da categoria “Python 3″; remoção do carregamento automático do módulo pylab; agora é possível executar comandos do Python com comentários; entre outras.

Para o log completo dos commits incluídos nesta versão, veja esta página.

Futuro

Para o futuro talvez o plano de maior prioridade seja remover a KDELibs4Support do Cantor. O Lucas já fez parte desse trabalho, e esperamos finalizá-lo para o próximo release.

Eu pretendo dar uma olhada na comunicação via D-Bus e verificar se ela seria uma boa saída para o backend do Scilab. Outra tarefa também programada é a reorganização dos assistentes para geração de gráficos nos backends do Python. E um objetivo de longo prazo é acompanhar a criação do projeto Jupyter, que será o futuro do IPython notebooks – tornar o Cantor compatível com o Jupyter pode ser uma boa forma de aumentar o número de potenciais usuários do software, além de fomentar a colaboração entre diferentes comunidades com interesse em programação científica.

Também irei aproveitar o lançamento dessa versão e escrever sobre duas formas de utilizar o Cantor – estilo terminal como o Matlab; e estilo notebooks, como o IPython. Aguardem!

Se você gostaria de auxiliar no desenvolvimento do Cantor, entre em contato para conversarmos sobre resoluções de bugs, desenvolvimento de novas funcionalidades, e mais. Ou contribua com a vakinha do KDE Brasil para realização do LaKademy 2015. Minha participação no evento será bastante focada no desenvolvimento do software, principalmente nos objetivos que listei acima.

Ubuntu: traidor do movimento ou de (ingênuas) expectativas?

Capa do Ubuntu 4.10 Warty Warthog – primeira versão da distro

Quem acompanha a comunidade software livre brasileira deve estar a par das recentes discussões sobre o pedido para não recomendação e não instalação do Ubuntu no FLISOL, Festival Latino-Americano de Instalação de Software Livre, evento em rede voltado para instalar distros GNU/Linux e outros softwares livres. As discussões começaram a partir de um abaixo-assinado lançado pelo Anahuac, continuaram na lista PSL-Brasil e FLISOL, e culminaram com a recomendação do coordenador brasileiro do evento, Thiago Paixão, para que os grupos brasileiros boicotem o Ubuntu – um eco um tanto tardio de um pedido que o Stallman fez em 2013.

Antes de partir para o texto em si cabe duas declarações para contextualizar os leitores sobre os posicionamentos do autor: 1) Não uso Ubuntu e nem tenho qualquer relação com a Canonical. Minha história com essa distro durou apenas 3 semanas no ano de 2006 – voltei pro Kurumin porque não gostei do Gnome (desculpem amigos Gnomos :) ); 2) De fato o spyware que o Ubuntu instala por padrão nos computadores do usuário é algo sim muito nocivo, e apenas esse motivo justificaria o pedido de não recomendação do sistema em qualquer roda de ativistas de software livre.

Isso exposto me preocupa muito o andamento que as discussões tomaram, principalmente os argumentos que apontam o Ubuntu como uma distro que não é software livre. Esses argumentos no geral se embasam em duas premissas: os blobs binários e o fato da Canonical ter “virado as costas pra comunidade”, ou algo do gênero.

Sobre a questão dos blobs binários infelizmente isso é um problema que os desenvolvedores do kernel Linux e, por extensão, as principais distros, se defrontam. Muitos fabricantes de hardware só disponibilizam os drivers para Linux num formato binário, sem código-fonte. Os desenvolvedores do Linux tiveram que escolher: é melhor suportar o hardware com software privativo ou não suportar o hardware? Eles escolheram a primeira opção e isso acabou desembarcando nas distros em geral.

Portanto, blobs binários são entregues com todas as distros mais conhecidas. Não é exclusividade do Ubuntu: o Debian tem, o Fedora, OpenMandriva, Mageia, OpenSUSE, Chakra, Arch, e muitas outras. A FSF mantém uma página explicando isso, e por esse motivo recomenda apenas a instalação de distros que eliminaram esses blobs, como o Trisquel.

Mas aí a questão que os desenvolvedores do kernel se perguntaram continua, e para mim ela é bastante complexa: é melhor instalar os blobs e ter o hardware funcionando ou ficar sem poder utilizar esse hardware? Claro que é melhor hardware que funciona com driver livre, mas as vezes o usuário não tem acesso a esse tipo de dispositivo. Para mim é melhor ter um sistema operacional 90% livre do que entregar um pen drive com alguma distro recomendada pela FSF para um usuário com hardware não suportado e dizer “da próxima vez traga um computador que não precise de blobs pra funcionar corretamente”, como chegaram a propor.

Mas voltando ao tema, por que apenas o Ubuntu será condenado por uma prática comum às demais distros?

O segundo ponto seria a Canonical destratar a sua comunidade. Nos últimos anos temos visto um movimento forte da empresa em dar foco ao Ubuntu e implementar uma certa visão ao sistema operacional que o tornaria compatível com smartphones, televisões, tablets e outras mais. Nesse sentido vimos a Canonical tirando suporte (e por consequência demitindo funcionários) de diversos remixes do Ubuntu mantidos oficialmente por ela, como o Kubuntu, Xubuntu e Edubuntu; a criação de um ambiente desktop próprio, o Unity, após o pessoal do Gnome não ter se mostrado muito receptivo às modificações que a companhia gostaria de ver; a criação de um servidor gráfico próprio, o Mir, que foi anunciado com muitas críticas – equivocadas – ao servidor que demais comunidades e empresas estão desenvolvendo, o Wayland; entre outras.

Todas essas medidas deixaram insatisfeitos parte da comunidade Ubuntu, em especial o pessoal mais velho que viu a distro crescer desde o começo; entretanto, estas iniciativas parecem não ter afetado uma certa base de usuários mais jovem. De qualquer forma, o ponto aqui é que todas as medidas relacionadas a software que a Canonical tomou são software livre. O código está disponível, tanto do Unity quanto do Mir, e é até irônico que as principais licenças que utilizam seja a versão 3 da GPL e LGPL.

É importante que saibamos separar nossas expectativas, gostos e frustrações daquilo que se espera de um movimento. Infelizmente (e coloco um infelizmente sem ironia), Stallman nunca colocou que o software livre seria um movimento antiempresarial. Para ele, software livre é sobre respeito ao usuário, que este tenha os meios de entender o que está acontecendo na sua máquina, e que não seja controlado por ela. Não é sobre julgamentos morais se uma empresa baseada em software livre agiu certo ou errado quando tomou tal direcionamento, a despeito ou não de sua comunidade.

O Ubuntu sempre foi uma distro com uma empresa por trás – a Canonical. Não há porque se frustrar quando a empresa *dona* do projeto resolve dar direcionamento diferente do que os usuários desejavam. Empresas fazem isso. Parece que o pessoal levou a sério demais o slogan Linux for human beings. É muito comum vermos empresas adotarem a prática dos slogans bonitinhos, mas só ingenuidade para acreditar que uma empresa é realmente aquilo que a propaganda dela apresenta. É como pensar que o Pão de Açúcar realmente se importa com você quando pergunta “o que faz você feliz?”; ou que o McDonald’s é aquela tia distante que recebe uma visita surpresa sua e fala, maternal, “que bom que você veio”. Ou que para a Coca-Cola não importa que você tome mais e mais a água-com-gás-açúcar-e-toxinas deles, mas sim que você “abra a felicidade”.

Qual a solução para isso? Contribua com distros realmente comunitárias. Estive na mesa crossdistro no FISL15 como membro da comunidade Mageia e comentei sobre isso. Não critico quem contribui com distros gerenciadas por empresas, cada um faz o que quer, mas eu não faço isso. Por esse motivo, quando o Mageia nasceu como uma distro comunitária a partir do fork do Mandriva, pulei junto com o grupo (e também porque havia um certo ar de “fábrica ocupada” no Mageia que dava um charme adicional ao projeto e foi fundamental para eu decidir seguir com eles =)). Em distros comunitárias há transparência e regras de governança estabelecidas que permitem que quem de fato dita as regras da distro é sua comunidade, e não o gerente de projetos de uma empresa qualquer. Há várias distros assim, como o Debian, exemplo mais famoso. Só seguir em frente e trabalhar para um projeto que você realmente se reconheça nele.

Pensando o software livre em termos de projeto, temos que entender que software livre se relaciona ao código, não ao gerenciamento.

Sobre o Ubuntu, espero que a Canonical realmente cumpra a promessa de remover o spyware na próxima versão da distro, 15.04, que deve sair 2 dias antes do FLISOL (!!!). Para mim, quando isso acontecer, a distro voltará a ser como outra distro qualquer, com seu gerenciamento próprio, suas metodologias, comunidade e etc, mas acima de tudo escrevendo código utilizando licenças livres e lançando software que respeita seus usuários.

Sobre a comunidade de software livre, espero que possamos perceber que não há um problema específico do Ubuntu aqui, e que então sigamos em frente nos focando em alguma das outras intricadas questões que a sociedade nos coloca dia após dia.

Filipe Saraiva é desenvolvedor na comunidade KDE e empacotador na comunidade Mageia

 

Ubuntu: traidor do movimento ou de (ingênuas) expectativas?

Capa do Ubuntu 4.10 Warty Warthog – primeira versão da distro

Quem acompanha a comunidade software livre brasileira deve estar a par das recentes discussões sobre o pedido para não recomendação e não instalação do Ubuntu no FLISOL, Festival Latino-Americano de Instalação de Software Livre, evento em rede voltado para instalar distros GNU/Linux e outros softwares livres. As discussões começaram a partir de um abaixo-assinado lançado pelo Anahuac, continuaram na lista PSL-Brasil e FLISOL, e culminaram com a recomendação do coordenador brasileiro do evento, Thiago Paixão, para que os grupos brasileiros boicotem o Ubuntu – um eco um tanto tardio de um pedido que o Stallman fez em 2013.

Antes de partir para o texto em si cabe duas declarações para contextualizar os leitores sobre os posicionamentos do autor: 1) Não uso Ubuntu e nem tenho qualquer relação com a Canonical. Minha história com essa distro durou apenas 3 semanas no ano de 2006 – voltei pro Kurumin porque não gostei do Gnome (desculpem amigos Gnomos :) ); 2) De fato o spyware que o Ubuntu instala por padrão nos computadores do usuário é algo sim muito nocivo, e apenas esse motivo justificaria o pedido de não recomendação do sistema em qualquer roda de ativistas de software livre.

Isso exposto me preocupa muito o andamento que as discussões tomaram, principalmente os argumentos que apontam o Ubuntu como uma distro que não é software livre. Esses argumentos no geral se embasam em duas premissas: os blobs binários e o fato da Canonical ter “virado as costas pra comunidade”, ou algo do gênero.

Sobre a questão dos blobs binários infelizmente isso é um problema que os desenvolvedores do kernel Linux e, por extensão, as principais distros, se defrontam. Muitos fabricantes de hardware só disponibilizam os drivers para Linux num formato binário, sem código-fonte. Os desenvolvedores do Linux tiveram que escolher: é melhor suportar o hardware com software privativo ou não suportar o hardware? Eles escolheram a primeira opção e isso acabou desembarcando nas distros em geral.

Portanto, blobs binários são entregues com todas as distros mais conhecidas. Não é exclusividade do Ubuntu: o Debian tem, o Fedora, OpenMandriva, Mageia, OpenSUSE, Chakra, Arch, e muitas outras. A FSF mantém uma página explicando isso, e por esse motivo recomenda apenas a instalação de distros que eliminaram esses blobs, como o Trisquel.

Mas aí a questão que os desenvolvedores do kernel se perguntaram continua, e para mim ela é bastante complexa: é melhor instalar os blobs e ter o hardware funcionando ou ficar sem poder utilizar esse hardware? Claro que é melhor hardware que funciona com driver livre, mas as vezes o usuário não tem acesso a esse tipo de dispositivo. Para mim é melhor ter um sistema operacional 90% livre do que entregar um pen drive com alguma distro recomendada pela FSF para um usuário com hardware não suportado e dizer “da próxima vez traga um computador que não precise de blobs pra funcionar corretamente”, como chegaram a propor.

Mas voltando ao tema, por que apenas o Ubuntu será condenado por uma prática comum às demais distros?

O segundo ponto seria a Canonical destratar a sua comunidade. Nos últimos anos temos visto um movimento forte da empresa em dar foco ao Ubuntu e implementar uma certa visão ao sistema operacional que o tornaria compatível com smartphones, televisões, tablets e outras mais. Nesse sentido vimos a Canonical tirando suporte (e por consequência demitindo funcionários) de diversos remixes do Ubuntu mantidos oficialmente por ela, como o Kubuntu, Xubuntu e Edubuntu; a criação de um ambiente desktop próprio, o Unity, após o pessoal do Gnome não ter se mostrado muito receptivo às modificações que a companhia gostaria de ver; a criação de um servidor gráfico próprio, o Mir, que foi anunciado com muitas críticas – equivocadas – ao servidor que demais comunidades e empresas estão desenvolvendo, o Wayland; entre outras.

Todas essas medidas deixaram insatisfeitos parte da comunidade Ubuntu, em especial o pessoal mais velho que viu a distro crescer desde o começo; entretanto, estas iniciativas parecem não ter afetado uma certa base de usuários mais jovem. De qualquer forma, o ponto aqui é que todas as medidas relacionadas a software que a Canonical tomou são software livre. O código está disponível, tanto do Unity quanto do Mir, e é até irônico que as principais licenças que utilizam seja a versão 3 da GPL e LGPL.

É importante que saibamos separar nossas expectativas, gostos e frustrações daquilo que se espera de um movimento. Infelizmente (e coloco um infelizmente sem ironia), Stallman nunca colocou que o software livre seria um movimento antiempresarial. Para ele, software livre é sobre respeito ao usuário, que este tenha os meios de entender o que está acontecendo na sua máquina, e que não seja controlado por ela. Não é sobre julgamentos morais se uma empresa baseada em software livre agiu certo ou errado quando tomou tal direcionamento, a despeito ou não de sua comunidade.

O Ubuntu sempre foi uma distro com uma empresa por trás – a Canonical. Não há porque se frustrar quando a empresa *dona* do projeto resolve dar direcionamento diferente do que os usuários desejavam. Empresas fazem isso. Parece que o pessoal levou a sério demais o slogan Linux for human beings. É muito comum vermos empresas adotarem a prática dos slogans bonitinhos, mas só ingenuidade para acreditar que uma empresa é realmente aquilo que a propaganda dela apresenta. É como pensar que o Pão de Açúcar realmente se importa com você quando pergunta “o que faz você feliz?”; ou que o McDonald’s é aquela tia distante que recebe uma visita surpresa sua e fala, maternal, “que bom que você veio”. Ou que para a Coca-Cola não importa que você tome mais e mais a água-com-gás-açúcar-e-toxinas deles, mas sim que você “abra a felicidade”.

Qual a solução para isso? Contribua com distros realmente comunitárias. Estive na mesa crossdistro no FISL15 como membro da comunidade Mageia e comentei sobre isso. Não critico quem contribui com distros gerenciadas por empresas, cada um faz o que quer, mas eu não faço isso. Por esse motivo, quando o Mageia nasceu como uma distro comunitária a partir do fork do Mandriva, pulei junto com o grupo (e também porque havia um certo ar de “fábrica ocupada” no Mageia que dava um charme adicional ao projeto e foi fundamental para eu decidir seguir com eles =)). Em distros comunitárias há transparência e regras de governança estabelecidas que permitem que quem de fato dita as regras da distro é sua comunidade, e não o gerente de projetos de uma empresa qualquer. Há várias distros assim, como o Debian, exemplo mais famoso. Só seguir em frente e trabalhar para um projeto que você realmente se reconheça nele.

Pensando o software livre em termos de projeto, temos que entender que software livre se relaciona ao código, não ao gerenciamento.

Sobre o Ubuntu, espero que a Canonical realmente cumpra a promessa de remover o spyware na próxima versão da distro, 15.04, que deve sair 2 dias antes do FLISOL (!!!). Para mim, quando isso acontecer, a distro voltará a ser como outra distro qualquer, com seu gerenciamento próprio, suas metodologias, comunidade e etc, mas acima de tudo escrevendo código utilizando licenças livres e lançando software que respeita seus usuários.

Sobre a comunidade de software livre, espero que possamos perceber que não há um problema específico do Ubuntu aqui, e que então sigamos em frente nos focando em alguma das outras intricadas questões que a sociedade nos coloca dia após dia.

Filipe Saraiva é desenvolvedor na comunidade KDE e empacotador na comunidade Mageia

 

Privacidade e interesse comum – o caso do (quase) bloqueio ao WhatsApp

O recente caso do pedido de bloqueio ao WhatsApp no Brasil – que não chegou a cabo pois foi declarado desproporcional por instância jurídica superior – é uma ótima oportunidade para fazermos o debate sobre o quão estamos dispostos a permitir, enquanto sociedade, que a criptografia e a privacidade do indivíduo estejam acima dos limites que estabelecemos para investigação de crimes e justiça, ou interesse comum da sociedade.

O bloqueio ao WhatsApp foi requisitado após a empresa se recusar a cooperar em uma investigação que corre em sigilo desde 2013. Há fortes indícios de que esse processo tem relação com casos de pedofilia. Apesar do bloqueio ter tentado forçar a empresa a auxiliar na investigação, imagino que realmente o WhatsApp não teria muito o que fazer se o pedido referia-se à disponibilização dos logs das conversas de algum usuário.

Isso porque o aplicativo funciona com uma arquitetura peer-2-peer: não deve haver outro armazenamento das mensagens que não o do próprio celular dos usuários. Não há uma nuvem com o histórico das conversas, como ocorre em aplicativos tais como o Telegram, Skype, Facebook Messenger, ou os servidores de e-mail convencionais. Inclusive esse é o motivo para o WhatsApp desktop ter como requisito que o celular do usuário esteja conectado à internet – ele acessa as conversas no celular para poder funcionar, pois elas não estão em outro lugar.

Nesse caso, como proceder a investigação? O próprio juiz empenhado no caso comentou o quão difícil é prosseguir nessa tarefa diante da popularização da tecnologia de aplicativos de mensagens:

Até pouco tempo atrás nós fazíamos interceptações telefônicas, mas hoje ninguém usa telefone [para falar], usa o WhatsApp.

O que mais me preocupa nesse tópico é encontrar manifestações de especialistas comentando que o bloqueio ao WhatsApp fere o direito de liberdade de expressão. Em que pese, de fato, ter sido desproporcional, qual seria a alternativa adequada na investigação de crime tão perverso? E se pensarmos em ferramentas ainda mais direcionadas para prover ampla e forte criptografia, como o aplicativo de mensagem TextSecure, as chaves PGP, e os codificadores de HD, como o utilizado pelo Daniel Dantas que nem o FBI descriptografou, quanto estamos propensos a permitir o direito sem limites à privacidade?

Outra análise recorrente que também me chama atenção é a que diz que a lei avança mais devagar que a tecnologia e por isso está sempre defasada. Por acaso isso seria então motivo para não regulamentá-la, e deixar que usos nocivos à sociedade, como os investigados, proliferem e nos reste apenas lamentar pelo inevitável?

Acredito que todos nós já passamos pela experiência de sentar no sofá da sala para assistir o jornal e, durante reportagem sobre investigação do escândalo de corrupção da semana, sermos testemunhas de uma conversa privada que revela o esquema. Por que os meios digitais de comunicação deveriam ser uma exceção a esse tipo de monitoramento, fundamentado e autorizado, que busca identificar criminosos de verdade?

Minha proposta aqui é apenas chamar atenção para essa questão, e que consigamos fazer um debate sério e elaborado sobre o tema. Talvez seja interessante darmos uma olhada sobre como era o debate da privacidade quando as primeiras linhas telefônicas começaram a se estender sobre as cidades. É uma ideia.

Infelizmente, os governos e as grandes empresas de tecnologia tornaram esse tipo de debate bastante complicado quando passaram a monitorar todos os cidadãos indiscriminadamente, tendo os passos de nossas vidas, contatos e interações armazenados em grandes data centers, mastigados, processados e correlacionados por avançados algoritmos. De repente o cenário tornou-se um jogo extremo, de tudo ou nada. Temos que nos ocultar ao máximo pois o governo e as empresas estão monitorando tudo, sejamos inocentes ou não.

Mas, será que para fugir dessa vigilância massiva, estamos propensos até mesmo a impedir que investigações de crimes que afetam a sociedade consigam avançar?

Repositório de Acesso Aberto do WSL – Workshop de Software Livre

Tenho muito orgulho de, junto com o Terceiro, termos trabalhado durante o último ano na criação de um repositório de acesso aberto para o Workshop de Software Livre – WSL. Segue abaixo a nota oficial de divulgação, e prometo que após o FISL 16 escreverei um texto com o making-of desse projeto

wsl-coverPágina inicial do repositório do Workshop de Software Livre

É com grande satisfação que anunciamos a versão beta do repositório de artigos do Workshop de Software Livre (WSL).

O primeiro WSL ocorreu junto com o primeiro Fórum Internacional de Software Livre (FISL) em 2000. Desde então foram 15 edições anuais onde diversos pesquisadores brasileiros e do exterior apresentaram resultados de trabalhos e estudos sobre software livre nos mais diversos campos, desde relatórios de adoção e migração, até o desenvolvimento de novas ferramentas cujo código fonte está disponível, lista de boas práticas para desenvolvimento, estudos de caso, inovações, estudos sociológicos sobre as dinâmicas das comunidades de desenvolvedores, e muito mais.

Os artigos destas 15 edições estavam espalhados em livros e diferentes repositórios provisórios na internet. Agora todos os trabalhos estão reunidos em um só lugar, com modernas funcionalidades para compartilhamento e referências aos autores, além de métricas para acompanhamento da difusão dos artigos.

Gostaríamos de convidar toda a comunidade com interesse no WSL para revisar o conteúdo, como nome dos autores e artigos, afim de corrigirmos qualquer incosistência. Esse passo é importante pois, com os dados estabilizados, partiremos para a fase de indexação do repositório em diferentes serviços acadêmicos, como os repositórios DBLP, BDBComp, Google Scholar, além de adicionarmos um ISSN e, provavelmente, DOI.

Sejam bem-vindos ao repositório do WSL! Andar por ele significa, além de permitir encontrar interessantes artigos sobre o tema, é também promover uma visita à história do software livre no Brasil.

O repositório do WSL está em http://wsl.softwarelivre.org/ – e no rodapé da página há um link para o código-fonte do repositório, disponibilizado como software livre sob a licença GPLv3.

E lembrem-se: o WSL 2015 está com chamada de trabalhos aberta até dia 22 de março. Mais infos em: http://softwarelivre.org/wsl

SciPy Latin America 2015 – Inscrições e Chamada de Trabalhos

O evento latinoamericano sobre aplicações de Python nos mais diferentes campos das ciências, engenharias e afins, está com as inscrições e chamadas para submissão de trabalhos aberta!

Há 4 tipos diferentes de propostas de trabalho que podem ser submetidas: Palestras, Tutoriais, Pôsteres e Palestras relâmpago, e podem ser submetidos trabalhos em inglês, espanhol ou português. O deadline é dia 6 de abril. Para mais detalhes confira a página da chamada de trabalhos.

O evento ocorrerá em Posadas, Misiones, Argentina, de 20 à 22 de maio e as inscrições são gratuitas. Para maiores informações, mantenha os olhos na página do evento.

Cold but cool

gran-stamUm dos ângulos da Estocolmo antiga, Gamla stan

Já fez um mês que deixei o Brasil pra passar uma curta temporada na capital da Suécia, Estocolmo, assumindo uma vaga de pesquisador visitante na Kungliga Tekniska högskolan – que você pode chamar em inglês de Royal Institute of Technology ou simplesmente usar a sigla KTH. Havia comentado sobre essa aventura antes aqui no blog através de um post em inglês que pretendia pegar algumas dicas sobre onde morar, custos de vida, essas coisas.

Vim parar aqui por conta do grupo de pesquisa PSMIX, que desenvolve estudos de aplicações de sistemas multiagentes como ferramenta para controle distribuído em sistemas de potência tipo smart grids – ou seja, o mesmo assunto que desenvolvo no meu doutorado. Tenho interesse em especial na plataforma de simulação que eles desenvolveram, que utiliza um conjunto de RaspberryPi conectados entre si.

kth-neveKungliga Tekniska högskolan (ou só KTH mesmo) e muita neve

No momento estou sentindo na pele o inverno nórdico, com temperaturas sempre baixas e neve por todo lado. Acho que o maior “calorzinho” que peguei na rua deve ter sido uns 3 °C, mas a média tem variado entre -1 °C e 2 °C. A mais baixa temperatura foi -9 °C, mas nesse dia fiz questão de não sair de casa.

Apesar dessas temperaturas, você só irá senti-las por aqui caso saia para a rua. As casas suecas são muito preparadas para o frio e mesmo o transporte público tem aquecedor. Tanto onde moro quanto no laboratório, a temperatura sempre está entre agradáveis 20 °C, 25 °C. Entretanto, para visitantes estrangeiros como eu, não sair de casa para dar uma volta por causa do frio não é uma opção.

Estocolmo é uma cidade muito bonita, repleta de parques, lagos e pontes dividindo espaço com prédios de arquitetura medieval, barroca ou contemporânea. Galerias de arte, museus, centros de compras, restaurantes dos mais diversos tipos, pontuam a cidade em seus diversos bairros. O transporte público é muito eficiente, com hora marcada para chegada de ônibus e metrô, e a partir deles é possível se deslocar pela cidade de forma muito simples.

Logicamente, a cidade também tem seus problemas. Um dos maiores certamente é o déficit habitacional – é dito que Estocolmo tem 2 milhões de residentes, mas há apenas 924 mil unidades habitacionais disponíveis. Alguém que tenha recentemente entrado em uma lista de espera para compra de imóveis pode demorar anos até ver a sua vez chegar. Isso eleva o preço das habitações, chegando a ser bastante comum o aluguel de um quarto em residência compartilhada com preços a partir de 5000 coroas suecas (pouco mais de 1600 reais).

No meu caso, como sou pesquisador visitante e não estudante, foi me oferecido um flat em um município 70 km distante de Estocolmo, Norrtälje. Essa cidade faz parte de algo como o estado de Estocolmo, e aqui tenho um apartamento num preço comparável ao de um quarto em residência compartilhada. Também há confortáveis ônibus fazendo o trajeto entre as cidades de 15 em 15 minutos – o problema é o tempo de deslocamento dessas viagens. Estou pensando se para os dois últimos meses do estágio me mudarei para Estocolmo ou não.

Outro ponto negativo é o custo de vida em Estocolmo. Comer é caro – em média 120 coroas suecas (40 reais) por refeição. Há restaurantes mais em conta que fazem promoções para alguns pratos na hora do almoço, que acabam ficando em torno de 65 coroas (20 reais). O ticket para uma viagem no transporte público custa 25 coroas (pouco mais de 8 reais), o que acaba te induzindo a comprar o cartão de transporte (taxa de 20 coroas ~ 7 reais e pouquinho) e carregá-lo com permissão para número ilimitado de viagens por uma semana (300 coroas ~ 100 reais) ou um mês (790 coroas ~ 255 reais).

Mas bem, apesar dos pontos ruins acima tem sido uma experiência bastante interessante. Morar num país tão diferente e conviver com pesquisadores de várias partes do mundo tem sido bastante enriquecedor, um desafio ininterrupto. Espero escrever mais sobre esse momento que estou passando aqui, minhas impressões e mais, compartilhando com os amigos esses tempos diferentes, gelados porém legais.

casa-neveVista do lugar onde moro – em um dia de muita neve

E fica meu agradecimento à FAPESP, agência de fomento à pesquisa do estado de São Paulo que está bancando essa fase dos meus estudos através de uma bolsa BEPE.