Ubuntu: traidor do movimento ou de (ingênuas) expectativas?

Capa do Ubuntu 4.10 Warty Warthog – primeira versão da distro

Quem acompanha a comunidade software livre brasileira deve estar a par das recentes discussões sobre o pedido para não recomendação e não instalação do Ubuntu no FLISOL, Festival Latino-Americano de Instalação de Software Livre, evento em rede voltado para instalar distros GNU/Linux e outros softwares livres. As discussões começaram a partir de um abaixo-assinado lançado pelo Anahuac, continuaram na lista PSL-Brasil e FLISOL, e culminaram com a recomendação do coordenador brasileiro do evento, Thiago Paixão, para que os grupos brasileiros boicotem o Ubuntu – um eco um tanto tardio de um pedido que o Stallman fez em 2013.

Antes de partir para o texto em si cabe duas declarações para contextualizar os leitores sobre os posicionamentos do autor: 1) Não uso Ubuntu e nem tenho qualquer relação com a Canonical. Minha história com essa distro durou apenas 3 semanas no ano de 2006 – voltei pro Kurumin porque não gostei do Gnome (desculpem amigos Gnomos :) ); 2) De fato o spyware que o Ubuntu instala por padrão nos computadores do usuário é algo sim muito nocivo, e apenas esse motivo justificaria o pedido de não recomendação do sistema em qualquer roda de ativistas de software livre.

Isso exposto me preocupa muito o andamento que as discussões tomaram, principalmente os argumentos que apontam o Ubuntu como uma distro que não é software livre. Esses argumentos no geral se embasam em duas premissas: os blobs binários e o fato da Canonical ter “virado as costas pra comunidade”, ou algo do gênero.

Sobre a questão dos blobs binários infelizmente isso é um problema que os desenvolvedores do kernel Linux e, por extensão, as principais distros, se defrontam. Muitos fabricantes de hardware só disponibilizam os drivers para Linux num formato binário, sem código-fonte. Os desenvolvedores do Linux tiveram que escolher: é melhor suportar o hardware com software privativo ou não suportar o hardware? Eles escolheram a primeira opção e isso acabou desembarcando nas distros em geral.

Portanto, blobs binários são entregues com todas as distros mais conhecidas. Não é exclusividade do Ubuntu: o Debian tem, o Fedora, OpenMandriva, Mageia, OpenSUSE, Chakra, Arch, e muitas outras. A FSF mantém uma página explicando isso, e por esse motivo recomenda apenas a instalação de distros que eliminaram esses blobs, como o Trisquel.

Mas aí a questão que os desenvolvedores do kernel se perguntaram continua, e para mim ela é bastante complexa: é melhor instalar os blobs e ter o hardware funcionando ou ficar sem poder utilizar esse hardware? Claro que é melhor hardware que funciona com driver livre, mas as vezes o usuário não tem acesso a esse tipo de dispositivo. Para mim é melhor ter um sistema operacional 90% livre do que entregar um pen drive com alguma distro recomendada pela FSF para um usuário com hardware não suportado e dizer “da próxima vez traga um computador que não precise de blobs pra funcionar corretamente”, como chegaram a propor.

Mas voltando ao tema, por que apenas o Ubuntu será condenado por uma prática comum às demais distros?

O segundo ponto seria a Canonical destratar a sua comunidade. Nos últimos anos temos visto um movimento forte da empresa em dar foco ao Ubuntu e implementar uma certa visão ao sistema operacional que o tornaria compatível com smartphones, televisões, tablets e outras mais. Nesse sentido vimos a Canonical tirando suporte (e por consequência demitindo funcionários) de diversos remixes do Ubuntu mantidos oficialmente por ela, como o Kubuntu, Xubuntu e Edubuntu; a criação de um ambiente desktop próprio, o Unity, após o pessoal do Gnome não ter se mostrado muito receptivo às modificações que a companhia gostaria de ver; a criação de um servidor gráfico próprio, o Mir, que foi anunciado com muitas críticas – equivocadas – ao servidor que demais comunidades e empresas estão desenvolvendo, o Wayland; entre outras.

Todas essas medidas deixaram insatisfeitos parte da comunidade Ubuntu, em especial o pessoal mais velho que viu a distro crescer desde o começo; entretanto, estas iniciativas parecem não ter afetado uma certa base de usuários mais jovem. De qualquer forma, o ponto aqui é que todas as medidas relacionadas a software que a Canonical tomou são software livre. O código está disponível, tanto do Unity quanto do Mir, e é até irônico que as principais licenças que utilizam seja a versão 3 da GPL e LGPL.

É importante que saibamos separar nossas expectativas, gostos e frustrações daquilo que se espera de um movimento. Infelizmente (e coloco um infelizmente sem ironia), Stallman nunca colocou que o software livre seria um movimento antiempresarial. Para ele, software livre é sobre respeito ao usuário, que este tenha os meios de entender o que está acontecendo na sua máquina, e que não seja controlado por ela. Não é sobre julgamentos morais se uma empresa baseada em software livre agiu certo ou errado quando tomou tal direcionamento, a despeito ou não de sua comunidade.

O Ubuntu sempre foi uma distro com uma empresa por trás – a Canonical. Não há porque se frustrar quando a empresa *dona* do projeto resolve dar direcionamento diferente do que os usuários desejavam. Empresas fazem isso. Parece que o pessoal levou a sério demais o slogan Linux for human beings. É muito comum vermos empresas adotarem a prática dos slogans bonitinhos, mas só ingenuidade para acreditar que uma empresa é realmente aquilo que a propaganda dela apresenta. É como pensar que o Pão de Açúcar realmente se importa com você quando pergunta “o que faz você feliz?”; ou que o McDonald’s é aquela tia distante que recebe uma visita surpresa sua e fala, maternal, “que bom que você veio”. Ou que para a Coca-Cola não importa que você tome mais e mais a água-com-gás-açúcar-e-toxinas deles, mas sim que você “abra a felicidade”.

Qual a solução para isso? Contribua com distros realmente comunitárias. Estive na mesa crossdistro no FISL15 como membro da comunidade Mageia e comentei sobre isso. Não critico quem contribui com distros gerenciadas por empresas, cada um faz o que quer, mas eu não faço isso. Por esse motivo, quando o Mageia nasceu como uma distro comunitária a partir do fork do Mandriva, pulei junto com o grupo (e também porque havia um certo ar de “fábrica ocupada” no Mageia que dava um charme adicional ao projeto e foi fundamental para eu decidir seguir com eles =)). Em distros comunitárias há transparência e regras de governança estabelecidas que permitem que quem de fato dita as regras da distro é sua comunidade, e não o gerente de projetos de uma empresa qualquer. Há várias distros assim, como o Debian, exemplo mais famoso. Só seguir em frente e trabalhar para um projeto que você realmente se reconheça nele.

Pensando o software livre em termos de projeto, temos que entender que software livre se relaciona ao código, não ao gerenciamento.

Sobre o Ubuntu, espero que a Canonical realmente cumpra a promessa de remover o spyware na próxima versão da distro, 15.04, que deve sair 2 dias antes do FLISOL (!!!). Para mim, quando isso acontecer, a distro voltará a ser como outra distro qualquer, com seu gerenciamento próprio, suas metodologias, comunidade e etc, mas acima de tudo escrevendo código utilizando licenças livres e lançando software que respeita seus usuários.

Sobre a comunidade de software livre, espero que possamos perceber que não há um problema específico do Ubuntu aqui, e que então sigamos em frente nos focando em alguma das outras intricadas questões que a sociedade nos coloca dia após dia.

Filipe Saraiva é desenvolvedor na comunidade KDE e empacotador na comunidade Mageia

 

Ubuntu: traidor do movimento ou de (ingênuas) expectativas?

Capa do Ubuntu 4.10 Warty Warthog – primeira versão da distro

Quem acompanha a comunidade software livre brasileira deve estar a par das recentes discussões sobre o pedido para não recomendação e não instalação do Ubuntu no FLISOL, Festival Latino-Americano de Instalação de Software Livre, evento em rede voltado para instalar distros GNU/Linux e outros softwares livres. As discussões começaram a partir de um abaixo-assinado lançado pelo Anahuac, continuaram na lista PSL-Brasil e FLISOL, e culminaram com a recomendação do coordenador brasileiro do evento, Thiago Paixão, para que os grupos brasileiros boicotem o Ubuntu – um eco um tanto tardio de um pedido que o Stallman fez em 2013.

Antes de partir para o texto em si cabe duas declarações para contextualizar os leitores sobre os posicionamentos do autor: 1) Não uso Ubuntu e nem tenho qualquer relação com a Canonical. Minha história com essa distro durou apenas 3 semanas no ano de 2006 – voltei pro Kurumin porque não gostei do Gnome (desculpem amigos Gnomos :) ); 2) De fato o spyware que o Ubuntu instala por padrão nos computadores do usuário é algo sim muito nocivo, e apenas esse motivo justificaria o pedido de não recomendação do sistema em qualquer roda de ativistas de software livre.

Isso exposto me preocupa muito o andamento que as discussões tomaram, principalmente os argumentos que apontam o Ubuntu como uma distro que não é software livre. Esses argumentos no geral se embasam em duas premissas: os blobs binários e o fato da Canonical ter “virado as costas pra comunidade”, ou algo do gênero.

Sobre a questão dos blobs binários infelizmente isso é um problema que os desenvolvedores do kernel Linux e, por extensão, as principais distros, se defrontam. Muitos fabricantes de hardware só disponibilizam os drivers para Linux num formato binário, sem código-fonte. Os desenvolvedores do Linux tiveram que escolher: é melhor suportar o hardware com software privativo ou não suportar o hardware? Eles escolheram a primeira opção e isso acabou desembarcando nas distros em geral.

Portanto, blobs binários são entregues com todas as distros mais conhecidas. Não é exclusividade do Ubuntu: o Debian tem, o Fedora, OpenMandriva, Mageia, OpenSUSE, Chakra, Arch, e muitas outras. A FSF mantém uma página explicando isso, e por esse motivo recomenda apenas a instalação de distros que eliminaram esses blobs, como o Trisquel.

Mas aí a questão que os desenvolvedores do kernel se perguntaram continua, e para mim ela é bastante complexa: é melhor instalar os blobs e ter o hardware funcionando ou ficar sem poder utilizar esse hardware? Claro que é melhor hardware que funciona com driver livre, mas as vezes o usuário não tem acesso a esse tipo de dispositivo. Para mim é melhor ter um sistema operacional 90% livre do que entregar um pen drive com alguma distro recomendada pela FSF para um usuário com hardware não suportado e dizer “da próxima vez traga um computador que não precise de blobs pra funcionar corretamente”, como chegaram a propor.

Mas voltando ao tema, por que apenas o Ubuntu será condenado por uma prática comum às demais distros?

O segundo ponto seria a Canonical destratar a sua comunidade. Nos últimos anos temos visto um movimento forte da empresa em dar foco ao Ubuntu e implementar uma certa visão ao sistema operacional que o tornaria compatível com smartphones, televisões, tablets e outras mais. Nesse sentido vimos a Canonical tirando suporte (e por consequência demitindo funcionários) de diversos remixes do Ubuntu mantidos oficialmente por ela, como o Kubuntu, Xubuntu e Edubuntu; a criação de um ambiente desktop próprio, o Unity, após o pessoal do Gnome não ter se mostrado muito receptivo às modificações que a companhia gostaria de ver; a criação de um servidor gráfico próprio, o Mir, que foi anunciado com muitas críticas – equivocadas – ao servidor que demais comunidades e empresas estão desenvolvendo, o Wayland; entre outras.

Todas essas medidas deixaram insatisfeitos parte da comunidade Ubuntu, em especial o pessoal mais velho que viu a distro crescer desde o começo; entretanto, estas iniciativas parecem não ter afetado uma certa base de usuários mais jovem. De qualquer forma, o ponto aqui é que todas as medidas relacionadas a software que a Canonical tomou são software livre. O código está disponível, tanto do Unity quanto do Mir, e é até irônico que as principais licenças que utilizam seja a versão 3 da GPL e LGPL.

É importante que saibamos separar nossas expectativas, gostos e frustrações daquilo que se espera de um movimento. Infelizmente (e coloco um infelizmente sem ironia), Stallman nunca colocou que o software livre seria um movimento antiempresarial. Para ele, software livre é sobre respeito ao usuário, que este tenha os meios de entender o que está acontecendo na sua máquina, e que não seja controlado por ela. Não é sobre julgamentos morais se uma empresa baseada em software livre agiu certo ou errado quando tomou tal direcionamento, a despeito ou não de sua comunidade.

O Ubuntu sempre foi uma distro com uma empresa por trás – a Canonical. Não há porque se frustrar quando a empresa *dona* do projeto resolve dar direcionamento diferente do que os usuários desejavam. Empresas fazem isso. Parece que o pessoal levou a sério demais o slogan Linux for human beings. É muito comum vermos empresas adotarem a prática dos slogans bonitinhos, mas só ingenuidade para acreditar que uma empresa é realmente aquilo que a propaganda dela apresenta. É como pensar que o Pão de Açúcar realmente se importa com você quando pergunta “o que faz você feliz?”; ou que o McDonald’s é aquela tia distante que recebe uma visita surpresa sua e fala, maternal, “que bom que você veio”. Ou que para a Coca-Cola não importa que você tome mais e mais a água-com-gás-açúcar-e-toxinas deles, mas sim que você “abra a felicidade”.

Qual a solução para isso? Contribua com distros realmente comunitárias. Estive na mesa crossdistro no FISL15 como membro da comunidade Mageia e comentei sobre isso. Não critico quem contribui com distros gerenciadas por empresas, cada um faz o que quer, mas eu não faço isso. Por esse motivo, quando o Mageia nasceu como uma distro comunitária a partir do fork do Mandriva, pulei junto com o grupo (e também porque havia um certo ar de “fábrica ocupada” no Mageia que dava um charme adicional ao projeto e foi fundamental para eu decidir seguir com eles =)). Em distros comunitárias há transparência e regras de governança estabelecidas que permitem que quem de fato dita as regras da distro é sua comunidade, e não o gerente de projetos de uma empresa qualquer. Há várias distros assim, como o Debian, exemplo mais famoso. Só seguir em frente e trabalhar para um projeto que você realmente se reconheça nele.

Pensando o software livre em termos de projeto, temos que entender que software livre se relaciona ao código, não ao gerenciamento.

Sobre o Ubuntu, espero que a Canonical realmente cumpra a promessa de remover o spyware na próxima versão da distro, 15.04, que deve sair 2 dias antes do FLISOL (!!!). Para mim, quando isso acontecer, a distro voltará a ser como outra distro qualquer, com seu gerenciamento próprio, suas metodologias, comunidade e etc, mas acima de tudo escrevendo código utilizando licenças livres e lançando software que respeita seus usuários.

Sobre a comunidade de software livre, espero que possamos perceber que não há um problema específico do Ubuntu aqui, e que então sigamos em frente nos focando em alguma das outras intricadas questões que a sociedade nos coloca dia após dia.

Filipe Saraiva é desenvolvedor na comunidade KDE e empacotador na comunidade Mageia

 

Privacidade e interesse comum – o caso do (quase) bloqueio ao WhatsApp

O recente caso do pedido de bloqueio ao WhatsApp no Brasil – que não chegou a cabo pois foi declarado desproporcional por instância jurídica superior – é uma ótima oportunidade para fazermos o debate sobre o quão estamos dispostos a permitir, enquanto sociedade, que a criptografia e a privacidade do indivíduo estejam acima dos limites que estabelecemos para investigação de crimes e justiça, ou interesse comum da sociedade.

O bloqueio ao WhatsApp foi requisitado após a empresa se recusar a cooperar em uma investigação que corre em sigilo desde 2013. Há fortes indícios de que esse processo tem relação com casos de pedofilia. Apesar do bloqueio ter tentado forçar a empresa a auxiliar na investigação, imagino que realmente o WhatsApp não teria muito o que fazer se o pedido referia-se à disponibilização dos logs das conversas de algum usuário.

Isso porque o aplicativo funciona com uma arquitetura peer-2-peer: não deve haver outro armazenamento das mensagens que não o do próprio celular dos usuários. Não há uma nuvem com o histórico das conversas, como ocorre em aplicativos tais como o Telegram, Skype, Facebook Messenger, ou os servidores de e-mail convencionais. Inclusive esse é o motivo para o WhatsApp desktop ter como requisito que o celular do usuário esteja conectado à internet – ele acessa as conversas no celular para poder funcionar, pois elas não estão em outro lugar.

Nesse caso, como proceder a investigação? O próprio juiz empenhado no caso comentou o quão difícil é prosseguir nessa tarefa diante da popularização da tecnologia de aplicativos de mensagens:

Até pouco tempo atrás nós fazíamos interceptações telefônicas, mas hoje ninguém usa telefone [para falar], usa o WhatsApp.

O que mais me preocupa nesse tópico é encontrar manifestações de especialistas comentando que o bloqueio ao WhatsApp fere o direito de liberdade de expressão. Em que pese, de fato, ter sido desproporcional, qual seria a alternativa adequada na investigação de crime tão perverso? E se pensarmos em ferramentas ainda mais direcionadas para prover ampla e forte criptografia, como o aplicativo de mensagem TextSecure, as chaves PGP, e os codificadores de HD, como o utilizado pelo Daniel Dantas que nem o FBI descriptografou, quanto estamos propensos a permitir o direito sem limites à privacidade?

Outra análise recorrente que também me chama atenção é a que diz que a lei avança mais devagar que a tecnologia e por isso está sempre defasada. Por acaso isso seria então motivo para não regulamentá-la, e deixar que usos nocivos à sociedade, como os investigados, proliferem e nos reste apenas lamentar pelo inevitável?

Acredito que todos nós já passamos pela experiência de sentar no sofá da sala para assistir o jornal e, durante reportagem sobre investigação do escândalo de corrupção da semana, sermos testemunhas de uma conversa privada que revela o esquema. Por que os meios digitais de comunicação deveriam ser uma exceção a esse tipo de monitoramento, fundamentado e autorizado, que busca identificar criminosos de verdade?

Minha proposta aqui é apenas chamar atenção para essa questão, e que consigamos fazer um debate sério e elaborado sobre o tema. Talvez seja interessante darmos uma olhada sobre como era o debate da privacidade quando as primeiras linhas telefônicas começaram a se estender sobre as cidades. É uma ideia.

Infelizmente, os governos e as grandes empresas de tecnologia tornaram esse tipo de debate bastante complicado quando passaram a monitorar todos os cidadãos indiscriminadamente, tendo os passos de nossas vidas, contatos e interações armazenados em grandes data centers, mastigados, processados e correlacionados por avançados algoritmos. De repente o cenário tornou-se um jogo extremo, de tudo ou nada. Temos que nos ocultar ao máximo pois o governo e as empresas estão monitorando tudo, sejamos inocentes ou não.

Mas, será que para fugir dessa vigilância massiva, estamos propensos até mesmo a impedir que investigações de crimes que afetam a sociedade consigam avançar?

Repositório de Acesso Aberto do WSL – Workshop de Software Livre

Tenho muito orgulho de, junto com o Terceiro, termos trabalhado durante o último ano na criação de um repositório de acesso aberto para o Workshop de Software Livre – WSL. Segue abaixo a nota oficial de divulgação, e prometo que após o FISL 16 escreverei um texto com o making-of desse projeto

wsl-coverPágina inicial do repositório do Workshop de Software Livre

É com grande satisfação que anunciamos a versão beta do repositório de artigos do Workshop de Software Livre (WSL).

O primeiro WSL ocorreu junto com o primeiro Fórum Internacional de Software Livre (FISL) em 2000. Desde então foram 15 edições anuais onde diversos pesquisadores brasileiros e do exterior apresentaram resultados de trabalhos e estudos sobre software livre nos mais diversos campos, desde relatórios de adoção e migração, até o desenvolvimento de novas ferramentas cujo código fonte está disponível, lista de boas práticas para desenvolvimento, estudos de caso, inovações, estudos sociológicos sobre as dinâmicas das comunidades de desenvolvedores, e muito mais.

Os artigos destas 15 edições estavam espalhados em livros e diferentes repositórios provisórios na internet. Agora todos os trabalhos estão reunidos em um só lugar, com modernas funcionalidades para compartilhamento e referências aos autores, além de métricas para acompanhamento da difusão dos artigos.

Gostaríamos de convidar toda a comunidade com interesse no WSL para revisar o conteúdo, como nome dos autores e artigos, afim de corrigirmos qualquer incosistência. Esse passo é importante pois, com os dados estabilizados, partiremos para a fase de indexação do repositório em diferentes serviços acadêmicos, como os repositórios DBLP, BDBComp, Google Scholar, além de adicionarmos um ISSN e, provavelmente, DOI.

Sejam bem-vindos ao repositório do WSL! Andar por ele significa, além de permitir encontrar interessantes artigos sobre o tema, é também promover uma visita à história do software livre no Brasil.

O repositório do WSL está em http://wsl.softwarelivre.org/ – e no rodapé da página há um link para o código-fonte do repositório, disponibilizado como software livre sob a licença GPLv3.

E lembrem-se: o WSL 2015 está com chamada de trabalhos aberta até dia 22 de março. Mais infos em: http://softwarelivre.org/wsl

SciPy Latin America 2015 – Inscrições e Chamada de Trabalhos

O evento latinoamericano sobre aplicações de Python nos mais diferentes campos das ciências, engenharias e afins, está com as inscrições e chamadas para submissão de trabalhos aberta!

Há 4 tipos diferentes de propostas de trabalho que podem ser submetidas: Palestras, Tutoriais, Pôsteres e Palestras relâmpago, e podem ser submetidos trabalhos em inglês, espanhol ou português. O deadline é dia 6 de abril. Para mais detalhes confira a página da chamada de trabalhos.

O evento ocorrerá em Posadas, Misiones, Argentina, de 20 à 22 de maio e as inscrições são gratuitas. Para maiores informações, mantenha os olhos na página do evento.

Cold but cool

gran-stamUm dos ângulos da Estocolmo antiga, Gamla stan

Já fez um mês que deixei o Brasil pra passar uma curta temporada na capital da Suécia, Estocolmo, assumindo uma vaga de pesquisador visitante na Kungliga Tekniska högskolan – que você pode chamar em inglês de Royal Institute of Technology ou simplesmente usar a sigla KTH. Havia comentado sobre essa aventura antes aqui no blog através de um post em inglês que pretendia pegar algumas dicas sobre onde morar, custos de vida, essas coisas.

Vim parar aqui por conta do grupo de pesquisa PSMIX, que desenvolve estudos de aplicações de sistemas multiagentes como ferramenta para controle distribuído em sistemas de potência tipo smart grids – ou seja, o mesmo assunto que desenvolvo no meu doutorado. Tenho interesse em especial na plataforma de simulação que eles desenvolveram, que utiliza um conjunto de RaspberryPi conectados entre si.

kth-neveKungliga Tekniska högskolan (ou só KTH mesmo) e muita neve

No momento estou sentindo na pele o inverno nórdico, com temperaturas sempre baixas e neve por todo lado. Acho que o maior “calorzinho” que peguei na rua deve ter sido uns 3 °C, mas a média tem variado entre -1 °C e 2 °C. A mais baixa temperatura foi -9 °C, mas nesse dia fiz questão de não sair de casa.

Apesar dessas temperaturas, você só irá senti-las por aqui caso saia para a rua. As casas suecas são muito preparadas para o frio e mesmo o transporte público tem aquecedor. Tanto onde moro quanto no laboratório, a temperatura sempre está entre agradáveis 20 °C, 25 °C. Entretanto, para visitantes estrangeiros como eu, não sair de casa para dar uma volta por causa do frio não é uma opção.

Estocolmo é uma cidade muito bonita, repleta de parques, lagos e pontes dividindo espaço com prédios de arquitetura medieval, barroca ou contemporânea. Galerias de arte, museus, centros de compras, restaurantes dos mais diversos tipos, pontuam a cidade em seus diversos bairros. O transporte público é muito eficiente, com hora marcada para chegada de ônibus e metrô, e a partir deles é possível se deslocar pela cidade de forma muito simples.

Logicamente, a cidade também tem seus problemas. Um dos maiores certamente é o déficit habitacional – é dito que Estocolmo tem 2 milhões de residentes, mas há apenas 924 mil unidades habitacionais disponíveis. Alguém que tenha recentemente entrado em uma lista de espera para compra de imóveis pode demorar anos até ver a sua vez chegar. Isso eleva o preço das habitações, chegando a ser bastante comum o aluguel de um quarto em residência compartilhada com preços a partir de 5000 coroas suecas (pouco mais de 1600 reais).

No meu caso, como sou pesquisador visitante e não estudante, foi me oferecido um flat em um município 70 km distante de Estocolmo, Norrtälje. Essa cidade faz parte de algo como o estado de Estocolmo, e aqui tenho um apartamento num preço comparável ao de um quarto em residência compartilhada. Também há confortáveis ônibus fazendo o trajeto entre as cidades de 15 em 15 minutos – o problema é o tempo de deslocamento dessas viagens. Estou pensando se para os dois últimos meses do estágio me mudarei para Estocolmo ou não.

Outro ponto negativo é o custo de vida em Estocolmo. Comer é caro – em média 120 coroas suecas (40 reais) por refeição. Há restaurantes mais em conta que fazem promoções para alguns pratos na hora do almoço, que acabam ficando em torno de 65 coroas (20 reais). O ticket para uma viagem no transporte público custa 25 coroas (pouco mais de 8 reais), o que acaba te induzindo a comprar o cartão de transporte (taxa de 20 coroas ~ 7 reais e pouquinho) e carregá-lo com permissão para número ilimitado de viagens por uma semana (300 coroas ~ 100 reais) ou um mês (790 coroas ~ 255 reais).

Mas bem, apesar dos pontos ruins acima tem sido uma experiência bastante interessante. Morar num país tão diferente e conviver com pesquisadores de várias partes do mundo tem sido bastante enriquecedor, um desafio ininterrupto. Espero escrever mais sobre esse momento que estou passando aqui, minhas impressões e mais, compartilhando com os amigos esses tempos diferentes, gelados porém legais.

casa-neveVista do lugar onde moro – em um dia de muita neve

E fica meu agradecimento à FAPESP, agência de fomento à pesquisa do estado de São Paulo que está bancando essa fase dos meus estudos através de uma bolsa BEPE.

SciPy-LA: construindo a comunidade (e a conferência!) latino-americana de Python na ciência

Logo não definitivo baseado na Wiphala, a bandeira dos povos andinos e também uma das bandeiras oficiais da Bolívia

Python é uma linguagem de programação de propósito geral e é interessante que, com o passar do tempo, sua comunidade acabou “se especializando” e criando subcomunidades relacionadas com as diferentes utilizações da linguagem. Portanto, temos hoje o pessoal em torno de aplicações web com Python; utilização de Python como primeira linguagem de programação (Python no ensino de programação); Python para dispositivos embarcados; e outras mais.

Uma de grande destaque é a comunidade de Python voltada à aplicações científicas – que subentende-se também aplicações para engenharias, matemática, estatística, e outras relacionadas com ciência computacional ou computação científica. Essa comunidade, conhecida como SciPy, vem realizando aplicações de Python nesses diferentes campos, desenvolve bibliotecas de funcionalidades comuns a essas aplicações (como a biblioteca e o stack também chamados SciPy), e também realiza conferências científicas sobre Python nesse ambiente (as conferências também são chamadas SciPy).

No Brasil já tivemos algumas trilhas voltadas à aplicações científicas com Python nas conferências PythonBrasil. Já os hermanos argentinos tem experiência em realizar conferências específicas sobre o tema, tendo organizado duas edições da SciPy Con Argentina, uma em 2013 e outra em 2014, e pelas programações é possível imaginar que foram eventos de boa qualidade.

Então eles que resolveram lançar a ideia: por que não uma SciPy Latino-Americana?

Resolvi embarcar e ajudar como posso na realização desse evento. Penso que todos nós temos a ganhar com a integração Latino-Americana, e evidente que um grande evento unificado não inviabiliza outros eventos, mais localizados. Quem sabe reunindo as comunidades de todo o subcontinente conseguiremos fazer um grande evento?

Quem quiser ajudar, entre na lista de e-mails (posts em espanhol, inglês ou português) e vamos discutindo. O local e data sugeridos para o SciPy-LA 2015 seria na última semana de maio de 2015, na cidade de Misiones, Argentina.

SciPy-LA: construindo a comunidade (e a conferência!) latino-americana de Python na ciência

Logo não definitivo baseado na Wiphala, a bandeira dos povos andinos e também uma das bandeiras oficiais da Bolívia

Python é uma linguagem de programação de propósito geral e é interessante que, com o passar do tempo, sua comunidade acabou “se especializando” e criando subcomunidades relacionadas com as diferentes utilizações da linguagem. Portanto, temos hoje o pessoal em torno de aplicações web com Python; utilização de Python como primeira linguagem de programação (Python no ensino de programação); Python para dispositivos embarcados; e outras mais.

Uma de grande destaque é a comunidade de Python voltada à aplicações científicas – que subentende-se também aplicações para engenharias, matemática, estatística, e outras relacionadas com ciência computacional ou computação científica. Essa comunidade, conhecida como SciPy, vem realizando aplicações de Python nesses diferentes campos, desenvolve bibliotecas de funcionalidades comuns a essas aplicações (como a biblioteca e o stack também chamados SciPy), e também realiza conferências científicas sobre Python nesse ambiente (as conferências também são chamadas SciPy).

No Brasil já tivemos algumas trilhas voltadas à aplicações científicas com Python nas conferências PythonBrasil. Já os hermanos argentinos tem experiência em realizar conferências específicas sobre o tema, tendo organizado duas edições da SciPy Con Argentina, uma em 2013 e outra em 2014, e pelas programações é possível imaginar que foram eventos de boa qualidade.

Então eles que resolveram lançar a ideia: por que não uma SciPy Latino-Americana?

Resolvi embarcar e ajudar como posso na realização desse evento. Penso que todos nós temos a ganhar com a integração Latino-Americana, e evidente que um grande evento unificado não inviabiliza outros eventos, mais localizados. Quem sabe reunindo as comunidades de todo o subcontinente conseguiremos fazer um grande evento?

Quem quiser ajudar, entre na lista de e-mails (posts em espanhol, inglês ou português) e vamos discutindo. O local e data sugeridos para o SciPy-LA 2015 seria na última semana de maio de 2015, na cidade de Misiones, Argentina.

Apresentando um estudante do Season of KDE 2014 – Minh Ngo

Season of KDE é um programa da comunidade KDE que auxilia novatos no desenvolvimento de projetos de software livre. Este ano estou trabalhando como orientador em um projeto relacionado ao Cantor, há muito requisitado pelos usuários – o desenvolvimento do backend para Python 3. Você poder ler mais sobre o Cantor em meu blog (textos em inglês e português). Vamos dar as boas-vindas e desejar boa sorte e bom trabalho à Minh Ngo, o estudante por trás desse projeto! Ele escreveu um texto de apresentação que traduzo abaixo.

Olá,

Meu nome é Minh,

Minh Ngo

Sou um estudante graduado. Sou vietnamita, mas ao contrário de outros estudantes vietnamitas, passei boa parte da minha vida na Ucrânia. Atualmente estou me preparando para um curso de mestrado, que devo iniciar no próximo semestre.

Open source é meu hobby nos tempos livres, onde eu gosto de fazer algo de útil para a comunidade. Anteriormente eu participei do Google Summer of Code 2013 e em vários outros projetos open source. Alguns dos meus projetos pessoais estão disponíveis no github em https://github.com/Ignotus. Eles não são muito populares como outros projetos legais, mas várias pessoas estão usando eles e isso me faz muito feliz :) .

Cantor é uma oportunidade para dedicar meu tempo para criar coisas úteis e ganhar uma exclusiva camiseta do KDE :) . Eu decidi começar minha contribuição com o backend do Python 3 porque meses atrás estava fazendo algumas aulas relacionadas com aprendizado de máquina, o que me fez procurar por um backend estável, em versão desktop, para o IPython. Eu não gosto muito da versão notebook do IPython, e a versão qtconsole não satisfaz meus critérios de funcionalidade, portanto decidi encontrar algum frontend para IPython que eu pudesse modificar para mim mesmo. E assim minha história com o Cantor começou :) .

Happy hacking!

As Crônicas das Terras Apartadas – Quinta Sessão

Tendo matado a quimera, o grupo de aventureiros, querendo saber mais sobre a história da torre, resolveram libertar um dos prisioneiros dos tubos. Agnus libertou o jovem humano e, com a ajuda de Edgard, retiraram o líquido dos pulmões dele.

O paladino precisou impor suas mãos sobre o rapaz desfalecido para que ele recuperasse a consciência. Ele levantou-se com dificuldade e disse que não sabia onde estava e nem quem era exatamente. Nem sequer lembrou do próprio nome.

Vendo que haviam outros como ele, preso em tubos contendo um líquido verde fluorescente, o jovem pediu que libertassem os outros, precisamente a mulher. No entanto, sabiam os outros que a mulher na verdade era uma dríade. Edgard recorreu a uma oração para revelar quem teria comportamento maligno entre os presos e sentiu que o gnoll e o sátiro tinha esse comportamento.

Por isso, resolveram libertar a dríade. Cuidaram de retirá-la da mesma forma que o outro, mas ela reagiu melhor. Não somente se lembrava de quem era, qual o seu nome (Drielle), como disse que nem foi induzida ao sono completamente ao longo dos anos como prisioneira.

Edgard apaixonou-se profundamente pela dríade enquanto conversava com ela. Foi difícil vê-la partir. Drielle, com condições de andar, pediu ajuda para sair daquela torre e voltar à sua floresta natal. Com relutância, deixaram que partisse. O outro liberto permaneceu com eles.

Depois disso, os aventureiros continuaram buscando o livro. Vitus disse que o livro poderia estar no topo da torre que estava trancada magicamente. Poderia haver uma chave em algum lugar. Continuaram percorrendo os aposentos. Chegaram num corredor que dava para os quartos dos residentes.

Encontraram um esqueleto de mulher no último quarto. Lá encontraram alguns pergaminhos que fazia parte de um diário. O texto contava os últimos dias da feiticeira naquela torre, o ataque dos homens-lagarto, a fuga do colega que levou um globo, sua frustração por não conseguir pegar o livro na torre e sua descida ao cativeiro para libertar o guardião que a defenderia. O texto termina informando que o guardião estava prestes a invadir seu quarto.

Ainda nos aposentos, eles encontram uma chave mágica. Logo eles retornam à frente da porta da torre e conseguem abrir com ela. Lá dentro, o recinto era ocupada por uma pequena mesa, estantes de livros e uma escada que leva a um telescópio. O teto era transparente e denunciava a noite estrelada que havia chegado.

Um livro na mesa era o que eles estavam procurando, pois o símbolo prateado do círculo com quatro pontas estava desenhado em sua capa. Ao abrir, o mago ficou sabendo que o livro contava a respeito de uma detalhada porém metafórica e alegórica profecia do óraculo de Meliandre em Calaboulos. Tal profecia havia sido decifrada pelo autor do livro e dizia que as alegorias eram na verdade a localização e a data de nascimento do Dragão da Paz. O objetivo do ritual seria o de invocar o dragão. O ritual exigia também o sacrifício ritualístico de 5 espécimes de raças diferentes: um humano, um sátiro, uma dríade, um gnoll e um doplellganger e que o filhote estivesse visível para o invocador.

Os heróis ficaram estupefatos com o que tinham em mãos. O que o contratante quer com o ritual? Usá-lo ou protegê-lo? Com essas perguntas em mente, eles resolveram descansar e dormir na própria torre.

Até o próximo relato de nossas sessões de Dungeon World.